Dete Lima nasceu em Salvador, Bahia, no dia 22 de agosto de 1953. A artista plástica e estilista é uma das fundadoras e diretora do Bloco Ilê Aiyê e é responsável por vestir a candidata eleita como Deusa do Ébano, Rainha do Ilê, desde a primeira edição do concurso em 1976. Em 2024 recebeu, da Câmara Municipal de Salvador, a Comenda Maria Quitéria, juntamente com sua mãe, a Ialorixá Mãe Hilda Jitolu (in memoriam).

Biografia Hildete Valdevina dos Santos Lima, ou Dete Lima, como é publicamente conhecida, nasceu no Terreiro Ilê Axé Jitolu, localizado no Curuzu, bairro da Liberdade, em Salvador (BA). É a segunda filha da Ialorixá Mãe Hilda Jitolu, cujo primogênito é seu irmão Vovó do Ilê (Antônio Carlos dos Santos). Na juventude, Dete Lima participava dos grupos de mortalha de carnaval e já era responsável pela customização e confecção das vestes carnavalescas de sua família. Co-criadora do Bloco Ilê Aiyê, junto à sua mãe e irmão mais velho, aos 19 anos a estilista assumiu a responsabilidade de confeccionar as vestes do bloco. Com uma máquina de costura doméstica, a estilista confeccionou cerca de 100 vestes, com o apoio da comunidade e da família. Dete Lima trabalhou, também, como trancista profissionalmente, sendo uma das primeiras profissionais das técnicas e penteados que se popularizaram no Brasil. Ela é mãe de quatro filhos e avó de sete netos. Filha de Oxum, Dete Lima é Ekede no Terreiro Ilê Axé Jitolu, onde foi braço direito de sua mãe e Ialorixá da casa. O Terreiro Jitolu atualmente é liderado pela sucessora de mãe Ialorixá Mãe Hilda Jitolu, sua filha a Ialorixá Hildelice Benta dos Santos, irmã de Dete Lima.

Carreira Dete Lima cresceu vendo sua mãe cuidar das vestimentas especiais dos orixás no Terreiro Ilê Axé Jitolu, no Curuzu. É essa vivência que inspira seu olhar e caminhos para a moda. A artista e co-fundadora do Bloco Afro Ilê Aiyê é a principal e mais tradicional estilista do primeiro Bloco Afro do Brasil, fundado em 1o de novembro de 1974. Desde que o bloco foi fundado, Dete Lima é responsável pelos figurinos dos associados do bloco. A estilista, também, é responsável por elaborar a indumentária da Deusa do Ébano, como é chamada a vencedora do concurso que elege, anualmente, a Rainha do Ilê Aiyê. Em 2026 o Concurso da Deusa do Ébano chegou à sua 45a edição. Sua estrutura passou por diversas transformações desde sua criação em 1975, mas Dete Lima permanece sendo a estilista responsável por vestir, de modo único e autoral, a vencedora da “Noite da Beleza Negra" do Ilê Aiyê.

Mais que um concurso de beleza, o evento nasceu na década 1970 como uma forma de legitimar a negritude e enfrentar o racismo por meio da autoafirmação da beleza negra e orgulho da negritude. O concurso foi idealizado pelo produtor cultural Sérgio Roberto dos Santos, inspirado nos concursos dedicados à eleger a Rainha do Carnaval. O evento, considerado revolucionário, buscava elevar a autoestima das mulheres negras, vítimas de racismo manifesto por meio da pressão estética, por exclusão a partir do mito do padrão de beleza europeu, racismo religioso, discriminação cultural e sexismo. “Naquela época a gente mulher não era nada, nem usávamos batom, não tínhamos consciência da nossa beleza. Você tinha vergonha de sair de casa, com medo de ser criticada.” (Maria de Lurdes dos Santos Cruz, primeira Deusa do Ébano)A primeira Deusa do Ébano, em 1976, foi Maria de Lourdes dos Santos Cruz, conhecida publicamente como Mirinha. Dete Lima a vestiu fazendo amarrações de tecidos nas cores verde e azul em seu corpo, iniciando, assim, a tradição de confecção da vestimenta da Deusa do Ébano que persiste até os dias de hoje. Em 2024 o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) em parceria com a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi) autorizaram o processo de reconhecimento da “Noite da Beleza Negra” como bem cultural imaterial do Estado da Bahia. Em 2026 o concurso alcançou a marca de quarenta e cinco edições, que se confundem com o número de edições em que a estilista elaborou o figurino da Rainha do Ilê. A pandemia de Covid-19 causou a descontinuidade do concurso por três anos consecutivos, retomando em 2023.

Prêmios e homenagens A Comenda Maria Quitéria, maior honraria da Câmara Municipal de Salvador, foi concedida à Dete Lima e sua mãe, a Ialorixá Mãe Hilda Jitolu (in memoriam), em 21 de agosto de 2024. A cerimônia foi realizada no Centro de Cultura Vereador Manuel Quirino. A comenda é concedida à mulheres que se destacam por sua atuação em prol da sociedade. “Receber essa comenda é algo muito valioso e de grande importância. É o reconhecimento de 50 anos de resistência e de luta pela igualdade, pelo empoderamento e pela sabedoria. É muito importante a valorização do trabalho que vem sendo executado no Mais Belo dos Belos pela valorização das mulheres negras. Viva a Mãe Hilda Jitolu pela sua luta, sua resistência e seu ensinamento” (Dete Lima)Em 2024, a estilista Isa Silva lançou a coleção “Axé, Odara, Dele Lima”, em homenagem à estilista do Bloco Ilê Aiyê. Realizado no dia 03 de maio, no Festival Feira Preta, no Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, localizado no Parque Ibirapuera em São Paulo, o desfile apresentou a coleção inspirada nas criações de Dete Lima e prestou homenagem à artista baiana. A coleção foi, também, apresentada na São Paulo Fashion Week. A 44a Noite da beleza Negra 2025 homenageou Dete Lima. Com o tema “O Curuzu é o mundo: e a porta de entrada é a percussão”, o evento homenageou a estilista com um troféu, peça exclusiva, assinada pelo escultor Aless Teixeira, em reconhecimento à sua dedicação como principal estilista do concurso ao longo de todas as suas edições. Em 2026 Dete Lima foi homenageada pelo Salvador Shopping, juntamente com a artista, trancista e empreendedora Negra Jhô, ambas deram nome à “Praça Estação da Folia”, um hub de serviços voltados ao carnaval. Outro importante reconhecimento, foi sua participação especial na novela da TV Globo “A Nobreza do Amor”. Por ser considerada uma das personalidades mais importantes na história do primeiro e mais tradicional bloco afro do Brasil, a estilista foi convidada a interpretar a avó da princesa Alika, interpretada pela atriz mirim Ludy Larger, em uma cena de flashback.

Referências