Diretora do Datafolha diz que antipetismo é mais forte do que sentimento de mudança

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Luciana Chong: diretora do Datafolha diz que a polarização tem travado o aumento da aprovação do governo Lula — Foto: Gabriel Reis/Valor
Veterana pesquisadora, a diretora do Datafolha, Luciana Chong, de 52 anos, com cerca de 30 anos de experiência em um dos principais institutos de pesquisa do país, diz que a eleição presidencial de 2026 ainda está em aberto. E que será decidida pelos 7% de eleitores que ainda consideram mudar seu voto.
Compõem esses 7% do eleitorado uma maioria de mulheres, jovens e pessoas de renda mais baixa e escolaridade média. Desses, 56% não rejeitam nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem Flávio Bolsonaro (PL). E 52% dizem não estar alinhados a nenhuma candidatura ou partido. Para Chong, a polarização da opinião pública torna extremamente difícil a migração de votos de Lula para Flávio e vice-versa.
Outra mudança notada por ela é que a avaliação do presidente e do governo não muda mais durante a campanha. Os eleitores não alteram sua opinião mesmo quando são beneficiados por medidas de última hora, como o pacote de bondades de Lula.
Chong aponta o Rio de Janeiro como o Estado onde a influência da milícia e do tráfico na política já se faz notar com mais clareza, dificultando até a previsão de resultado pelos institutos de pesquisa. “O Rio está dominado”, diz a diretora do Datafolha.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Chong ao Valor na sexta-feira (16) na sede do instituto, no Centro de São Paulo.
Valor: Flávio Bolsonaro foi para o segundo turno na frente de Lula, recebeu apoios e, mesmo assim, não ampliou suas intenções de voto e até recuou. O que explica isso?
Luciana Chong: A primeira pesquisa depois do primeiro turno mostrou Flávio com 49% e Lula com 45%. Agora, Flávio tem 47% e Lula, 45%. A movimentação que teve foi de dois pontos que eram do Flávio para indecisos ou voto em branco/ nulo. Não dá para dizer quem ganhou e quem perdeu.
Valor: Há uma movimentação do eleitorado mais jovem, de 16 a 24 anos, nas intenções de voto. Tem relação com as manifestações de rua?
Chong: Esse eleitorado está com Lula, que já tinha maioria nessa faixa em 2022. Na primeira pesquisa do 2º turno, esse índice caiu, mas agora retomou. É um grupo muito volátil. No 1º turno, os indecisos estavam no grupo dos mais jovens. As mulheres e os mais jovens demoraram mais para decidir. Entre as mulheres ficou estável: Lula tem 49% e Flávio, 41%. No recorte das mulheres chefes de família, Lula tem 54% e Flávio, 37%. É um segmento que Lula tem vantagem. Entre as mulheres que não são chefes de família, eles empatam. As mulheres têm preocupação maior com o social. Para elas, o principal problema do país é a saúde e para os homens, a segurança.
Valor: Lula anunciou um pacote de bondades, mas não aumentou intenções de voto nem a aprovação. O que ajuda a explicar isso?
Chong: Temos que rememorar 2022, 2018. A partir de 2018, mudou o patamar. No passado, Lula teve avaliações altíssimas. No segundo mandato, nessa época, tinha 81% de aprovação, de ótimo/bom. No primeiro, teve 49% de ótimo/bom. Isso não existe mais, por causa da polarização. A partir de 2018, quando Jair Bolsonaro ganhou, o país se dividiu. Em 2022, com a polarização, Lula ganhou por uma margem mínima no 2º turno. No 1º turno, Lula tinha uma vantagem maior em relação a Jair, de pelo menos dez pontos de vantagem, mas no segundo turno chegaram empatados. Essa polarização se mantém, por isso que a avaliação do Lula nunca foi boa.
Valor: O fim da jornada 6x1 pode mexer esse ponteiro?
Chong: Tem um contingente grande de pessoas que vão ser afetadas, mas tem um contingente maior que não vai, dos informais. É uma medida importante, mas é difícil. Mesmo que a pessoa ache que o governo está melhorando, se ele for Bolsonaro, não vai dizer isso.
Valor: A economia registra bons indicadores, mas isso não se refletiu na aprovação...
Chong: A economia também explica, porque é o bolso das pessoas. As pessoas estão mais endividadas, tem o preço dos alimentos, o supermercado mais caro. E isso reflete no governo. Tem também o escândalo do Banco Master. Apesar de Lula e o governo não estarem diretamente ligados, e o Flávio, sim, está claramente ligado, acaba respingando mais no governo.
Valor: Nas pesquisas, a preocupação com corrupção é pequena...
Chong: É pequena, de 7%. Talvez não tenha o peso para o voto. O eleitor do Flávio, quando teve o “Dark Horse”, quando divulgaram as conversas, Flávio oscilou, mas não foi significativo. As pessoas aceitaram a versão dele. E é o anti-Lula. O sentimento do antipetismo, do antilulismo, é muito forte.
Valor: O antipetismo é mais forte do que o sentimento de mudança?
Chong: O antipetismo é mais forte. Quando não tinha a candidatura do Flávio definida, simulamos cenários com Tarcísio [de Freitas], Michelle [Bolsonaro], Flávio. Flávio ia mal nas pesquisas, tinha percentual baixo. A partir do momento que o pai falou “ele é o meu candidato”, pronto. Conquistou os votos do pai. Dos que votaram em Jair Bolsonaro em 2022, 98% votaram no Flávio. É o antipetismo e idolatria do Bolsonaro.
Tem um mito de que a abstenção prejudica o Lula, porque são os mais pobres. Não dá para dizer”
Valor: Flávio Bolsonaro e a direita pregam a liberdade econômica, atraindo o trabalhador autônomo, o microempreendedor individual (MEI). Como fica a divisão entre CLT e informais?
Chong: Flávio vai melhor na faixa dos 25 até 44 anos, que é a faixa mais ativa economicamente. Entre 25 a 34 anos, ele tem 49%; de 35 a 44 anos, tem 54%. É essa faixa, com escolaridade média, que está mais no mercado informal. São os entregadores, motoristas de aplicativo. As faixas mais velhas estão mais com Lula; ele tem as duas pontas, jovens e velhos. O miolo, com MEI, está mais com o Flávio. É a geração “lavajatista”, que viveu a história da Lava-Jato. É a geração que não apoia Lula, que passou a odiá-lo.
Valor: O Datafolha dá peso a quem está motivado a votar?
Chong: Usamos para ponderar em quem o eleitor votou em 2022.
Valor: Em uma disputa tão apertada, isso pode decidir a eleição?
Chong: Sim, porque a diferença mínima. Perguntamos se o eleitor está totalmente decidido ou se ainda pode mudar. Tem 7% que falam que ainda podem mudar de opinião. E são justamente esses 7% que podem ir para um lado ou para o outro, ou podem não ir votar.
Valor: Se não forem votar, beneficiam quem estiver em primeiro?
Chong: Tem um mito de que a abstenção prejudica mais o Lula, porque são os mais pobres. Mas não dá para dizer. A abstenção no Nordeste, onde Lula vai melhor, foi muito menor do que no Sudeste. Não há ligação direta que beneficie ou prejudique alguém.
Valor: Sobre a migração do voto na última hora, um caso emblemático é o Rio. As pesquisas não captaram a mudança. O que explica isso?
Chong: O Rio é um território dominado. A pessoa pode até dizer na pesquisa que pretende votar no [Eduardo] Paes, mas vimos muitas notícias sobre a milícia e o crime organizado. As pessoas tinham que provar que votaram naquele candidato. A votação do [deputado Márcio] Canella, por exemplo, é altíssima. É complicado para captar isso. Tem o medo, porque tem um traficante ou miliciano de fuzil na porta da seção de votação.
Valor: O crime organizado dificulta prever os resultados?
Chong: Sim. A gente sempre tem ocorrências. O pesquisador chega num lugar, vem alguém com fuzil e diz “não pode ficar aqui, sai daqui”. [O problema] Não é o método de abordagem da pesquisa, senão o online teria dado certo. Na hora [de votar], o eleitor é obrigado.
Valor: Pode ter acontecido isso no Brasil inteiro, em menor escala?
Chong: Sim. Em 2022, Bolsonaro reuniu mulheres e disse que perderiam o benefício [social] se votassem no Lula. Tem a questão do medo. Tem empresários dizendo que, se não votar no Flávio, a pessoa vai perder o emprego. O medo é muito presente, está em todo lugar. A eleição do Rio revela isso.
Valor: O Datafolha continua a não fazer pesquisa para candidatos nem partidos?
Chong: Não fazemos. O Datafolha já nasceu com esse DNA. Entendemos que é necessário para não ter contaminação, não ter interferência na pesquisa.
Valor: A senhora destacou que apenas 7% podem mudar de voto
Chong: Os 7% que ainda podem mudar vão decidir a eleição. É muito difícil ter migração do Lula para Flávio ou do Flávio para Lula. São principalmente mulheres, mais jovens, têm nível médio de escolaridade, menor renda, não rejeitam nenhum dos dois candidatos, e são não alinhados [a nenhum dos candidatos].
Valor: O fator medo pode entrar na definição?
Chong: Sim. Vai depender muito das campanhas nessa reta final. Esta semana vai ser bem decisiva.
Valor: A eleição está aberta?
Chong: Está aberta. No primeiro turno, foi uma eleição muito morna, sem mobilização nem debate [com Lula e Flávio]. Ninguém estava empolgado, nem os candidatos, nem os eleitores. Mas agora, não, as pessoas estão mais agitadas.
Valor: Estar na Presidência costuma ser um fator de peso. E agora?
Chong: Em 2014 houve uma virada, com Aécio na frente [no segundo turno] e depois Dilma reverteu e ganhou por margem mínima, menor do que Lula e Jair. A polarização começou a se desenhar ali. Quando Aécio Neves (candidato derrotado do PSDB) contesta o resultado, ali está a semente. Depois disso, a Dilma não conseguiu governar, teve o impeachment, Temer e Bolsonaro.
Valor: Em geral, quem é reeleito tem avaliação positiva maior do que a negativa. Qual o peso da avaliação do governo na eleição?
Chong: Algumas verdades absolutas já não existem mais. Por exemplo, a de que o governante melhora a sua avaliação durante a campanha. Isso não existe. Lula não conseguiu, Bolsonaro também não. Bolsonaro não foi eleito, mas por uma margem pequena. Claro, fica mais difícil para o Lula porque ele tem avaliação negativa alta. Mas, com a polarização e tudo que a gente está vendo, é uma eleição em aberto. Não dá para afirmar que não vai conseguir. Os dois vão chegar muito empatados.
Valor: E qual o peso do voto por região? No Nordeste Lula não chegou na votação de 2022. Flávio está à frente no Sudeste e Sul.
Chong: Em 2022, nessa época, Lula tinha 68% no Nordeste. Agora está com 61%. Bolsonaro teve 27%. Flávio tem 32%. Flávio tem uma vantagem. No 1º turno, Lula não recebeu todos os votos [que teve] do Nordeste. Flávio conseguiu todos os votos do pai, chegou à frente e em vários segmentos está melhor do que o pai. Ele entrou em segmentos que eram Lula e isso tem muito a ver com a questão do agro e dos trabalhadores informais, com as pessoas que não veem mais o governo como algo muito importante. Na pesquisa, Lula não cresceu entre quem recebe Bolsa Família, mesmo após o reajuste do benefício. O programa é importante, mas não tem o apelo que teve no passado. Um terço de quem recebe o Bolsa Família vota no Flávio. Quando Lula tinha índices altíssimos de avaliação positiva, as pessoas tinham outras aspirações. Hoje, com as redes sociais e os influencers, as pessoas não querem mais a geladeira comum. Querem a que o influencer mostra, querem acesso a outras coisas. Isso pesa: querer mais do que podem. Aí entra o endividamento.
Valor: Nos últimos dias, Lula anunciou o fim das bets, perdão para dívida de MEI, passe livre nos ônibus no fim de semana, aprovou o fim da jornada 6x1. Ainda dá tempo de sentir os resultados nas urnas?
Chong: A maioria foi a favor da proibição das bets, mas não teve um impacto tão grande. Nas outras eleições, quando aconteciam anúncios, eles impactavam mais. Agora é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo E o eco dentro das pessoas dura pouco, porque daí já vem outra coisa. Por isso que o Lula acabou deixando para fazer tudo isso no final, tudo ao mesmo tempo. Porque senão se perde, se dilui. Mas, ao fazer tudo ao mesmo tempo, também se dilui.
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