A Terra pode não ser o melhor lugar do Universo para a vida prosperar. Essa é a hipótese por trás dos chamados mundos super-habitáveis, planetas que reuniriam condições para sustentar ecossistemas mais diversos e por períodos mais longos do que o nosso.

Continua após a publicidade

A ideia ganhou força entre astrônomos na década de 2010 e aponta para super-Terras que orbitam estrelas alaranjadas conhecidas como anãs do tipo K. Ainda não há confirmação de que esses mundos sejam mais habitáveis, mas futuras missões espaciais poderão ajudar a testar a hipótese.

A busca por mundos super-habitáveis amplia a investigação científica para além de planetas semelhantes à Terra. – Crédito: DALL-E/Olhar Digital

O que tornaria esses planetas mais habitáveis?

Em 2014, os astrônomos René Heller, do Instituto Max Planck de Pesquisa do Sistema Solar, na Alemanha, e John Armstrong, da Universidade Estadual Weber, nos Estados Unidos, propuseram ampliar a busca por vida extraterrestre para além de planetas semelhantes à Terra.

“Me ocorreu que atualmente a humanidade busca por planetas parecidos com a Terra com o mesmo viés antropocêntrico. Claro que a Terra é especial para nós. Mas, de uma perspectiva universal, por que a Terra deveria ser uma referência?”, questionou Heller no The New York Times.

Na hipótese dos pesquisadores, uma super-Terra teria entre 20% e 30% mais diâmetro que o nosso planeta e aproximadamente o dobro da massa. A gravidade mais intensa ajudaria a reter uma atmosfera mais espessa, enquanto um núcleo de ferro maior poderia gerar um campo magnético mais forte, oferecendo maior proteção contra a radiação cósmica.

O relevo também poderia favorecer a diversidade biológica. Mares rasos, lagos, arquipélagos e recifes formariam uma variedade de habitats, com condições potencialmente propícias ao desenvolvimento de ecossistemas complexos.

Por que as estrelas anãs K chamam a atenção?

Essas estrelas são mais frias que o Sol e consomem hidrogênio mais lentamente. Por isso, podem permanecer relativamente estáveis por dezenas de bilhões de anos, dando à vida mais tempo para evoluir. Na Terra, esse processo tem limites: em cerca de 500 milhões de anos, o aumento do brilho solar deverá tornar o planeta quente demais para sustentar formas complexas de vida, como plantas e animais.

Um experimento da astrobióloga Iva Vilović, do Instituto Leibniz de Astrofísica de Potsdam, na Alemanha, trouxe uma pista sobre o potencial dessas estrelas. Em laboratório, agriões cresceram mais rápido e ficaram mais altos sob uma iluminação que simulava a luz de uma anã K do que sob uma fonte que reproduzia a luz solar.

O resultado sugere que a fotossíntese, processo pelo qual as plantas usam luz para produzir energia, pode funcionar sob esse tipo de iluminação. Isso não comprova a existência de vegetação extraterrestre, mas ajuda os cientistas a avaliar quais ambientes poderiam sustentar a vida.

“A luz das anãs K é uma fonte de iluminação muito, muito interessante e deveria ser considerada, se não priorizada, em qualquer tipo de busca por vida extraterrestre, na minha opinião”, afirmou Vilović ao The New York Times.

Estrelas anãs K podem permanecer relativamente estáveis por dezenas de bilhões de anos, ampliando o tempo disponível para a evolução da vida. – Imagem: NASA, ESA, CSA, Ralf Crawford (STScI)
Continua após a publicidade
Quando poderemos encontrar esses mundos?
A primeira etapa é identificar planetas candidatos. A missão Plato, da Agência Espacial Europeia, tem lançamento previsto para 2027 e deverá detectar planetas potencialmente habitáveis, incluindo super-Terras que orbitam estrelas do tipo K.
“Provavelmente encontraremos alguns deles — talvez uma dúzia”, afirmou Heller. O astrônomo ressalvou, porém, que a descoberta inicial não permitirá conhecer muitos detalhes desses mundos.
A investigação das atmosferas virá depois. O telescópio James Webb poderá estudar alguns desses planetas, enquanto o Telescópio Extremamente Grande, em construção no Chile, deverá ampliar as possibilidades de observação. Para a década de 2040, a NASA planeja o Observatório de Mundos Habitáveis, que poderá aprofundar a busca por sinais de vida.
Por enquanto, a existência de planetas mais habitáveis que a Terra continua sendo uma hipótese. Encontrar esses mundos e estudar suas atmosferas será essencial para descobrir se, em algum lugar da galáxia, a vida dispõe de condições mais favoráveis do que as que permitiram seu desenvolvimento por aqui.
Valdir Antonelli
Valdir Antonelli é jornalista com especialização em marketing digital e consumo.
Ver todos os artigos →
Tags: Planetas Habitáveis Sistema Solar Super-Terras vida extraterrestre


