Resumo

Impulsionados pelo apoio e pelo modelo de Nikolas Ferreira, jovens políticos conservadores obtiveram votações históricas no país, como Lucas Pavanato em SP e Lucas Polese no ES. Esse fenômeno da direita combina o domínio da linguagem das redes sociais, a exploração de algoritmos com confrontos e humor, forte apelo religioso e identificação direta com o eleitorado, consolidando um padrão em que o ambiente digital e a mídia tornaram-se parte central da construção de suas identidades políticas.

Nikolas foi o deputado federal mais votado da história do país e popularizou um modelo de político que se multiplicou nesta eleição

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Se um Nikolas em Brasília já incomoda o sistema, imagina dois."

Essa era uma das frases repetidas por Lucas Pavanato (PL-SP) durante o horário eleitoral, em uma peça de campanha que contou com a participação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

Influenciador de direita, Pavanato recebeu 3.038.438 votos em São Paulo e se tornou o segundo deputado federal mais votado da história do país aos 28 anos.

O resultado o colocou a poucos milhares de votos do recorde de seu principal espelho político, Nikolas Ferreira.

Com 3,11 milhões de votos, o mineiro, de 30 anos, mais que dobrou a votação que havia recebido em 2022, quando obteve cerca de 1,4 milhão de votos em Minas Gerais.

O recorde anterior pertencia a Eduardo Bolsonaro, que recebeu 1,8 milhão de votos em 2018 para representar São Paulo na Câmara dos Deputados.

A votação consolida Nikolas como uma das figuras de maior projeção do PL — e não apenas pelo tamanho de sua votação.

Ao longo dos últimos anos, o deputado mineiro ajudou a popularizar um modelo de atuação política que saiu das redes sociais e se multiplicou pelo país: jovens políticos de direita que transformam as plataformas digitais não apenas em instrumentos de divulgação, mas em parte central de sua atuação política.

O caso de Pavanato em São Paulo é o exemplo mais evidente dessa "multiplicação".

Vereador mais votado da capital paulista em 2024, com cerca de 160 mil votos, Pavanato começou na política como assessor de Fernando Holiday, então vereador de São Paulo, e participou ainda jovem das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Nos últimos dois anos, consolidou-se como um dos principais nomes da direita jovem no Estado e ampliou sua presença nas redes. Hoje, ele acumula cerca de 5,2 milhões de seguidores no Instagram, onde publica vídeos que combinam política, humor, abordagens nas ruas e confrontos com adversários — uma estratégia semelhante à adotada por Nikolas Ferreira, apontado pelo analista político Creomar de Souza como fundamental para a visibilidade de sua campanha.

"O grande responsável pela construção da visibilidade da campanha de Pavanato nesta eleição foi Nikolas Ferreira, que apareceu, que fez comício, que estava nas peças, que divulgou e apoiou e, ao fim do dia, tem esse resultado em sua cota pessoal", afirma Souza.

O fenômeno, contudo, não se restringiu a São Paulo. Principal aposta do PL no Espírito Santo, Lucas Polese recebeu 419.735 votos e foi o deputado federal mais votado da história do Estado.

O jovem de 29 anos fez campanha ao lado de Nikolas e usou a imagem e declarações de apoio do deputado mineiro em seu horário eleitoral. A proximidade entre os dois chegou a render a Polese o apelido de "Nikolas capixaba" no Estado.

Assim como Nikolas, Polese construiu parte importante de sua atuação política no ambiente digital e em movimentos da direita. Tem cerca de 290 mil seguidores no Instagram e se tornou um dos principais opositores do ex-governador Renato Casagrande (PSB).
Lucas Pavanato (PL) conquistou mais de 3 milhões de votos para deputado federal de São Paulo, sendo o segundo mais votado da história do país
Foto: Reprodução/Instagram / BBC News Brasil
Já no Ceará, André Fernandes (PL) recebeu 684.372 votos e foi reeleito deputado federal, com votação recorde, que superou nomes tradicionais da política, como Ciro Gomes. Ele também recebeu apoio de Nikolas no Estado.
André tem 29 anos e ganhou notoriedade como youtuber, produzindo vídeos de humor na internet, e depois, sobre política. Ele foi eleito deputado estadual em 2018, aos 20 anos, tornando-se um dos mais jovens do país. Depois, foi eleito deputado federal pelo PL.
Esse modelo de político também alcançou candidatos de outros partidos, mas que receberam apoio explícito de Nikolas. No Paraná, Guilherme Kilter (Novo), de 24 anos, obteve 269.832 votos e foi o segundo deputado federal mais votado do Estado.
Vereador de Curitiba, Kilter é líder de jovens e universitários da Primeira Igreja Batista de Curitiba, onde atua há mais de sete anos, e construiu parte de sua trajetória política a partir da produção de conteúdo cristão nas redes sociais. Hoje, soma cerca de 1 milhão de seguidores no Instagram.
Embora não seja filiado ao PL, recebeu apoio público de Nikolas durante a campanha — que o apresentou aos eleitores paranaenses como seu candidato no Estado.
Mas a multiplicação de "Nikolas" pelo Brasil não se deteve à disputa para a Câmara dos Deputados ou ao gênero masculino.
Em São Paulo, a vereadora de Praia Grande Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa, com mais de 1,9 milhão de votos.
Aliada de Pavanato, Eduarda também construiu sua trajetória política nas plataformas digitais, onde defende pautas conservadoras e de direita, e faz críticas ao feminismo. Ela tem mais de 2,3 milhões de seguidores no Instagram.
Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma das características que ajudam a explicar esse fenômeno é o domínio da linguagem das redes sociais por essa nova geração de políticos, em uma sociedade cada vez mais conectada.
"Esses jovens conseguem confrontar e fazer cortes para as suas redes sociais, não raro, com lacração e memes. Isso tudo condiz com a lógica dos algoritmos que impulsionam todos os sentimentos mais extremados: medo, raiva, ódio, frustração, angústia e descrédito. São, em síntese, jovens digitais numa política ainda analógica", afirma.
Na avaliação de Eliara Santana, doutora em Estudos Linguísticos pela Unicamp e pesquisadora do Observatório das Eleições/IEPI, porém, a ascensão desses políticos não deve ser entendida apenas de uma geração de "políticos influenciadores", mas como uma transformação mais ampla na relação entre política e mídia.
"Eu não falaria no surgimento de um político influenciador, mas num cenário de um mundo que é político-midiático e em que nós não podemos mais separar essas duas instâncias", afirma.
Segundo ela, nesse ambiente, as redes sociais deixam de ser apenas uma ferramenta para divulgar a atuação de um político e passam a fazer parte da própria construção de sua identidade política.
Nikolas pediu votos para Lucas Polese (PL), que acabou eleito com mais de 400 mil votos no Espírito Santo para a Câmara dos Deputados
Foto: Reprodução/Redes Sociais / BBC News Brasil
Um dos elementos que ajudam a explicar a força desse modelo, segundo Santana, é a capacidade de transformar diferentes insatisfações e anseios em uma linguagem de fácil acesso.
O discurso, diz ela, produz identificação ao apresentar uma ideia de empoderamento e possibilidade de mudança.
"Há anseios novos, desejo de mudança, de melhorar de vida da população. E esses jovens políticos influenciadores captam esses anseios, esses desejos, e conseguem transformar isso em uma linguagem muito acessível e palatável em discurso, que não é vazio, é muito potente", afirma.
Para ela, esse é um dos motivos pelos quais reduzir o fenômeno à performance nas redes seria insuficiente.
"Não é só a performance em si, mas existe a construção de um discurso."
Para Carlos Machado, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a reprodução desse modelo também passa por uma mudança na forma como parte dos eleitores escolhe seus representantes. Mais do que avaliar propostas ou plataformas, diz ele, a identificação com determinadas figuras políticas ganha peso.
"Não é algo apenas do Pavanato. São pessoas das redes sociais que se especializaram no uso de redes sociais. Há uma reprodução da técnica usada pelo Nikolas", afirma.
Segundo Machado, as redes sociais ampliam um mecanismo que já existia na política: a escolha baseada em identificação simbólica com o candidato. A diferença é que as plataformas permitem que essa identificação seja construída e reforçada continuamente, por meio da exposição direta e constante do político ao eleitor.
A conexão com as igrejas
Líder de jovens e universitários da Primeira Igreja Batista de Curitiba, Guilherme Kilter (Novo) também recebeu apoio de Nikolas Ferreira na campanha
Foto: Reprodução/Redes Sociais / BBC News Brasil
A atuação desses políticos também não começa necessariamente nas redes sociais.
Segundo Santana, a conexão desses jovens com as igrejas tem um papel fundamental construção dessa militância e de circulação de discursos políticos.
"Essa turma articula via igrejas. As igrejas são muito potentes na organização discursiva, em construir mundos de sonhos."
Nikolas Ferreira tem ligação com a Igreja Batista da Lagoinha. André Fernandes tem ligação familiar com a Assembleia de Deus no Ceará, da qual seu pai, o pastor e deputado estadual Alcides Fernandes, faz parte. Pavanato, por sua vez, mantém atuação junto à Igreja Católica.
"Eles já têm uma arena, não são apenas influenciadores de um espaço digital. É como se fossem meninos religiosos que estão na política, mas que conseguem atingir também aqueles que querem discutir as preocupações dos cristãos na política."
Santana cita, como exemplo, o livro O Cristão e a Política, publicado por Nikolas Ferreira, em que ele apresenta uma perspectiva segundo a qual os cristãos devem ocupar o espaço político para evitar que ele seja ocupado por aqueles que não compartilham de sua fé.
"Ele diz: 'O cristão deve se apropriar da política, porque, se o cristão não se apropria da política, outros vão se apropriar'", afirma.
Para a pesquisadora, há sim uma "multiplicação de Nikolas" pelo Brasil, mas que não foram criados de forma individual, mas desenvolvidos com sucesso a partir de um modelo mais amplo que integra política, religião e redes sociais.
"Nikolas é um modelo, mas está calcado num modelo político-discursivo-midiático que é muito potente. É um modelo da extrema direita que vem dos Estados Unidos, está formado ali nas igrejas neopentecostais e que encontrou no Brasil um terreno muito fértil com o bolsonarismo", afirma.
"Ele se apropriou, ele desenvolveu muito bem, e isso está se espalhando pelo Brasil", diz.

