Márcio Canella e Marcus Amim são presos pela PF

PF acha fuzil em carro e prende ex-prefeito Márcio Canella no RJ
PF acha fuzil em carro e prende ex-prefeito Márcio Canella no RJ · Imagem: Source: g1.globo.com

Preso nesta quinta-feira (15) na oitava fase da Operação Unha e Carne, Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo deputado estadual mais votado do RJ nas eleições deste ano, é apontado pela Polícia Federal como “patrono político” e articulador de uma organização criminosa que usava postos de combustíveis para lavar dinheiro.

Márcio Canella: entenda acusações contra o 2º deputado mais votado no RJ, preso pela PF
Márcio Canella: entenda acusações contra o 2º deputado mais votado no RJ, preso pela PF · Imagem: Source: g1.globo.com

Segundo os investigadores, Canella fazia a ligação entre o poder público e o núcleo empresarial do grupo, influenciava nomeações para cargos estratégicos e aparece como beneficiário de repasses registrados em anotações apreendidas na casa de um policial civil.

A investigação também descreve conexões com milícias e com o Comando Vermelho e identifica relações entre operadores do grupo e empresas contratadas pela Prefeitura de Belford Roxo.

A defesa de Canella informou que não vai se pronunciar até ter acesso aos autos.

As prisões foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Além de Canella, foram presos o ex-chefe da Polícia Civil Marcus Amim e quatro inspetores da corporação.

Veja os principais pontos da investigação sobre Canella.

Qual seria o papel de Canella?

Márcio Canella usou um guarda-chuva para esconder o rosto ao ser conduzido por policiais federais — Foto: Allan Cavalcante/ TV Globo

A PF aponta Canella como o responsável pela articulação política do grupo, atuando na ligação entre agentes públicos, empresários e os operadores da rede de postos.

Segundo a representação encaminhada ao STF, sua atuação permitiria proteger as atividades do grupo e favorecer seus integrantes por meio da influência sobre órgãos públicos e contratações.

A Procuradoria-Geral da República também o descreve como articulador político e elo entre o poder público e os demais investigados. Para o órgão, sua capacidade de articulação institucional e de dar continuidade à movimentação e à ocultação de recursos justificava a prisão preventiva.

Pagamentos a 'Canela' e 'Amigo'?

Durante buscas realizadas em julho na casa do inspetor José Carlos Alves de Souza Júnior, a PF apreendeu anotações sobre arrecadação e distribuição de dinheiro de postos de combustíveis.

Os documentos registravam valores destinados a pessoas identificadas como “Canela”, “JR” e “PR”. Segundo os investigadores, as identificações correspondem, respectivamente, a Márcio Canella, José Carlos Júnior e ao policial Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. Todos foram presos nesta quinta.

A PF destacou repasses atribuídos a Canella de R$ 51 mil, R$ 31 mil e R$ 57 mil, este último sob o codinome “Amigo”.

As anotações estavam vinculadas aos postos Jardim Uba e Auto Posto LP Francis. Para a investigação, os registros indicam que o político recebia recursos do núcleo econômico do grupo sem lastro contratual aparente.

O que a PF encontrou nas contas de Canella?

A análise financeira identificou aproximadamente R$ 2,59 milhões em créditos nas contas de Canella entre maio de 2025 e abril de 2026.

Desse total, R$ 1,4 milhão veio da Brumar Empreendimentos e Participações, empresa da qual o político era sócio. Segundo a PF, o banco que comunicou as operações não conseguiu identificar a origem primária dos recursos, que passaram pela empresa em outra instituição financeira antes de chegar à conta de Canella.

Para os investigadores, esse caminho constitui indício de movimentação destinada a dificultar o rastreamento do dinheiro.

O documento também aponta transferências posteriores para familiares, pessoas do círculo político de Canella e empresas relacionadas a ele.

Esses valores bancários e os repasses registrados nas anotações são elementos distintos da investigação. A PF os usa para sustentar a suspeita de que Canella era beneficiário recorrente de recursos do grupo.

Suposta manobra para favorecer Amim

Segundo a PF, Canella patrocinou a indicação de Marcus Amim para a presidência do Detran-RJ e, posteriormente, para a Secretaria de Polícia Civil.

A representação afirma que o político também articulou uma mudança legislativa na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) para flexibilizar os requisitos de tempo de carreira exigidos para chefiar a Polícia Civil e viabilizar a nomeação do delegado.

Na avaliação dos investigadores, a ocupação de cargos estratégicos era parte do mecanismo de proteção do grupo.

Amim é apontado como responsável pela proteção institucional do esquema. A PF identificou R$ 1,821 milhão em pagamentos de uma empresa investigada para uma consultoria do delegado e de sua mulher, em repasses mensais de aproximadamente R$ 70 mil.

A suspeita é que uma consultoria fictícia disfarçasse remuneração por proteção e influência.

A investigação também identificou que um posto de combustíveis ligado ao grupo adiantou R$ 1,62 milhão para a compra de uma casa de R$ 3,28 milhões por Amim em Camboinhas, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Também fez parte desta compra, segundo a PF, um repasse de R$ 160 mil em espécie.

A defesa de Amim também informou que não vai se manifestar até ter acesso aos autos.

Ligação com o Comando Vermelho?

A representação da PF cita áudios já divulgados sobre uma negociação entre um capitão da PM e os chefes do Comando Vermelho Edgar Alves de Andrade, o Doca, e José Severino da Silva Júnior, o Soró.

Segundo a análise dos investigadores, o capitão atuava como intermediário dos interesses da gestão de Canella em Belford Roxo.

A negociação descrita pela PF previa a retirada de barricadas para permitir obras públicas e sua exploração político-eleitoral pela prefeitura. Em contrapartida, haveria recuo das incursões policiais e devolução do controle territorial aos traficantes após os serviços.

O trecho citado pela investigação trata de uma interlocução feita pelo capitão com os criminosos, e não de uma conversa direta de Canella com os chefes do CV.

Milícias

A PF também menciona vínculos de Canella com Juracy Alves Prudêncio, o Jura, apontado como liderança do grupo miliciano “Somos Comunidade”.

Entre os elementos citados está a nomeação da mulher de Jura para um cargo de assessora no gabinete parlamentar de Canella na Alerj.

A representação ainda menciona nomeações de ex-vereadores investigados por vínculos com milícias para cargos na administração municipal.

Para a PF, esses episódios integram um contexto de relações políticas e institucionais que dava sustentação ao grupo investigado.

Como os postos entram no esquema?

Segundo a PF, a rede de postos permitia misturar receitas legais e recursos ilícitos, usando o grande volume de dinheiro em espécie que circula no setor.

Os investigadores apontam José Carlos Júnior e Pablo Russo como responsáveis pelo controle de negócios formalmente registrados em nome de suas mulheres.

A apuração também reúne suspeitas de formação de cartel, venda irregular de combustíveis e obtenção antecipada de informações sobre fiscalizações.

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentação global de R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026 na rede de pessoas e empresas analisadas. Esse valor corresponde às transações identificadas, e não a um total de lavagem de dinheiro comprovado.

Por que Canella já havia sido preso em julho?

PF acha fuzil em carro e prende ex-prefeito Márcio Canella no RJ

Canella foi alvo de buscas na sexta fase da Operação Unha e Carne, em 7 de julho. Na ocasião, não havia mandado de prisão contra ele, mas o político acabou preso em flagrante após agentes encontrarem um fuzil em seu veículo.

Moraes determinou sua soltura em 10 de julho, com medidas cautelares. As restrições foram revogadas em 23 de julho.

A prisão desta quinta-feira é preventiva e decorre do aprofundamento da investigação sobre a organização criminosa e a movimentação de recursos.