A Guerra Civil Portuguesa (1245–1247), também conhecida como Revolução de 1245 ou Crise de 1245, foi um conflito entre o rei Sancho II e seu irmão Afonso, conde de Bolonha, pelo trono português. Sancho II enfrentou oposição da nobreza e do clero devido ao seu governo, o que levou o Papa Inocêncio IV a declará-lo inapto para governar e a nomear Afonso como regente. Afonso venceu a guerra, e Sancho foi forçado ao exílio na Castela.
Antecedentes
As raízes da crise remontam ao reinado de Afonso II, iniciado em 27 de março de 1211. Naquele momento, surgiram conflitos em torno da sucessão, com algumas facções favorecendo o infante Pedro Sanches, possivelmente devido a alegações de que Afonso II sofria de lepra. Embora Afonso II tenha assegurado o trono, as tensões permaneceram, com alguns nobres juntando-se a Afonso IX de Leão em conflitos fronteiriços e outros apoiando as irmãs do rei em disputas relacionadas ao testamento de seu pai. Afonso II empreendeu esforços para centralizar o poder, especialmente por meio das inquirições, das confirmações e de reformas jurídicas influenciadas pelo direito romano, o que enfraqueceu os privilégios da nobreza e do clero, mas também gerou oposição. Quando Afonso II morreu em 25 de março de 1223, a facção que se opunha à sua centralização ganhou influência. O novo rei, Sancho II, tinha apenas 13 anos e foi inicialmente orientado pelo arcebispo de Braga.
Apesar dos esforços do legado papal João de Abbeville para mediar as tensões entre a nobreza e a Igreja, elas permaneceram, e Sancho II continuou concentrado em suas campanhas militares, em vez de nos crescentes conflitos internos. A instabilidade apenas se agravou. A partir de 1226, facções nobres combateram entre si, e houve mais relatos de violência e banditismo. Em 1237, Sancho II estava em conflito com os bispos de Lisboa, Guarda e Braga.
Crise e guerra civil
Em fevereiro de 1245, o Papa Inocêncio IV, incentivado por Afonso, conde de Bolonha, declarou nulo o casamento de Sancho com Mécia Lopes de Haro e, um mês depois, emitiu a bula Inter alia desiderabilia. Em 24 de julho do mesmo ano, a bula Grandi non immerito declarou Sancho um "rex inutilis" (rei inútil) e transferiu a administração do Reino de Portugal para o conde de Bolonha, Afonso III, o que levou à guerra civil.
Batalha de Gaia, 1245 Em agosto de 1245, facções nobres rivais combateram em Gaia, resultando na morte de Rodrigo Sanches e de Abril Peres de Lumiares, ambos apoiadores do conde, por um exército liderado por Martim Gil de Soverosa. Enquanto isso, Afonso, ao lado de bispos e nobres exilados, preparava-se para assumir o controle.
Cerco de Coimbra, 1246
Ele desembarcou em Lisboa entre os últimos dias de dezembro de 1245 e o início de janeiro de 1246. Ao chegar, o conde de Bolonha voltou sua atenção para Coimbra, principal reduto de Sancho II. Durante o cerco da cidade, a rainha Mécia foi capturada no verão de 1246 e aprisionada na fortaleza de Ourém.
Batalha de Leiria, 1246 O conde, contudo, não conseguiu conquistar Coimbra, então voltou seu foco para Óbidos e Leiria. Ele entrou em Leiria em 2 de abril de 1246, após enfrentar alguma resistência dos defensores do castelo, liderados por Martim Fernandes de Urgezes, que se renderam após um mês. Vários apoiadores de Sancho II foram mortos, incluindo Suero Gomes de Tougues e Lourenço Fernandes de Gundar, enquanto outros, como Vasco Gil de Soverosa, foram capturados. O conflito chegou a um impasse, pois Sancho II interrompeu as linhas de suprimento do conde em Leiria.
Batalha de Leiria, 1247
Em 13 de janeiro de 1247, Sancho II, junto com Martim Gil de Soverosa e forças castelhanas sob o comando do infante Afonso de Castela e de Diego López de Haro, fez uma última tentativa de tomar Leiria. No ataque, as tropas de Sancho II e Afonso de Castela causaram mais de duzentas mortes entre as forças do conde de Bolonha, mas não conseguiram retomar a cidade, que permaneceu sob o domínio do conde.
Incidente em Trancoso, 1247 Após a derrota em Leiria, as forças de Sancho II e do infante Afonso de Castela começaram sua retirada em direção ao Reino de Leão. No caminho de volta, aproximaram-se do Castelo de Trancoso, onde muitos de seus adversários estavam presos. Um certo Fernão Garcia de Sousa, acompanhado apenas por seu escudeiro, apresentou-se e desafiou Martim Gil de Soverosa. Ele ofereceu renovar sua fidelidade ao rei se Martim Gil, a quem chamou de inimigo público, fosse afastado. No entanto, Sancho II recusou-se a permitir o combate. Segundo Rui de Pina, Martim Gil então tentou matar Fernão Garcia de Sousa por traição.
Fim da guerra Diante da impossibilidade de resistência, o infante Afonso de Castela deixou Portugal, e Sancho II acabou sendo forçado ao exílio no final de 1247, morrendo em Toledo em janeiro de 1248.
Martim de Freitas, governador de Coimbra, tornou-se uma figura lendária por manter a capital fiel ao rei Sancho II até a morte de seu senhor em Toledo. Freitas só concordou em se render depois de viajar a Toledo para ver o corpo de seu senhor em um caixão.
Consequências Agora rei, Afonso III iniciou um processo de pacificação e centralização. Seus primeiros atos incluíram a conclusão da conquista portuguesa do Algarve em 1249 e as Cortes de Guimarães em 1250.
Lista de apoiadores
Apoiadores de Sancho II de Portugal Sancho II de Portugal Rainha Mécia (prisioneira de guerra) Infante Afonso e seus vassalos: Nuno Gonçalves de Lara Diego López de Haro Rui Gomes da Galiza Fernando Anes de Lima Rodrigo Forjaz de Leão Martim Gil de Soverosa Martim Fernandes de Urgezes Suero Gomes de Tougues † Lourenço Fernandes de Gundar † Vasco Gil de Soverosa (POW) Manrique Gil de Soverosa João Gil de Soverosa Martim de Freitas
Apoiadores de Afonso, conde de Bolonha Afonso, conde de Bolonha Inocêncio IV Tibúrcio de Coimbra Rodrigo Sanches † Abril Peres de Lumiares † Fernão Garcia de Sousa
Notas
Referências
Bibliografia Mattoso, José (1984). «Revoltas e Revoluções» (PDF) Medina, Inés Calderón (2013). «La solidaridad familiar. La participación de la nobleza leonesa en la guerra civil de Portugal (1245-1247)» (em espanhol) Ventura, Leontina (1993). «Leiria na crise de 1245-1248» (PDF) Martins, Miguel Gomes (2014). A arte da guerra em Portugal. [S.l.]: Imprensa da Universidade de Coimbra / Coimbra University Press. ISBN 9789892606958 Pizarro, José Augusto (1997). Linhagens Medievais Portuguesas: Genealogias e Estratégias (1279-1325). [S.l.]: Tese de Doutoramento, Edição do Autor. hdl:10216/18023 Livermore, H. V. (19 de janeiro de 1947). A History of Portugal. [S.l.]: Cambridge University Press

