Quem acompanha as transmissões do circuito mundial de tênis talvez não perceba de imediato, mas a maneira de fotografar o esporte mudou nos últimos anos.A fotografia documental, focada no impacto do movimento ou no instante em que a raquete toca a bola, vem dividindo espaço com uma linguagem que flerta com o editorial de moda, a cultura digital e o lifestyle.No centro dessa transformação internacional está um brasileiro: Felipe Figueiredo, de 38 anos. Ex-fotógrafo de moda, eventos e publicidade, ele descobriu no tênis o ponto de encontro perfeito entre técnica visual e paixão esportiva. Com o fim do US Open 2026 no último dia 13, Felipe Figueiredo encerra um ciclo marcante de dois anos acompanhando o circuito internacional. Único fotógrafo brasileiro a cobrir integralmente a temporada, ele registrou momentos históricos, teve imagens publicadas na revista americana Time e conquistou a confiança de grandes nomes do tênis.Em entrevista exclusiva ao R7, Felipe revela os bastidores das quadras, a convivência com os atletas, os perrengues do circuito e como seu “olhar da moda” ajudou a transformar a maneira de retratar o esporte.R7 - O que um fotógrafo que veio do mercado de moda e publicidade enxerga à beira da quadra que a fotografia esportiva tradicional deixa passar?Felipe Figueiredo — O fato de ter passado por moda, eventos, shows e publicidade me ajudou muito a fugir daquela foto documental tradicional, de mero registro do lance. Procuro usar técnicas de outros segmentos no esporte. O slow shutter, por exemplo, é uma técnica em que você usa baixa velocidade para dar um efeito borrado ou focar o atleta em movimento enquanto desfoca o fundo. Eu usava muito isso em eventos ou quando queria dar movimento a uma roupa num ensaio de moda. Também uso filtros polarizadores criativos nas lentes para criar efeitos de luz. Meu objetivo nunca foi ser apenas mais um fotógrafo de esporte; é trazer uma edição de cor e um estilo de imagem diferentes. Se o leitor viu a notícia de que o João Fonseca venceu uma partida, em vez de ver apenas a foto dele batendo na bola, ele vai ver essa conquista sob uma perspectiva poética.R7 - Além da técnica, como as diferentes superfícies e a arquitetura dos torneios influenciam seu olhar?Felipe Figueiredo — As mudanças técnicas na câmera são pequenas, pois a velocidade do jogo é similar, mas visualmente muda tudo. Esteticamente, o gramado de Wimbledon é o mais bonito de fotografar. A combinação do uniforme branco dos atletas com o verde da grama cria uma composição muito chique e elegante. O saibro também tem o seu charme com a cor da terra, e a quadra dura também rende ótimos quadros. Em cada torneio, eu estudo a arena antes: se o teto é retrátil, para usar a sombra a meu favor, de onde vem a iluminação para capturar texturas, e assim por diante.R7 - Você convive diretamente com os atletas nas áreas restritas dos torneios. Quem mais chama sua atenção pela personalidade e pela relação com as câmeras?Felipe Figueiredo — No Players’ Lounge, que é a área restrita dos jogadores, a convivência é muito natural porque é um espaço profissional, sem tietagem de fãs ou pedidos de fotos. Das atletas que conheço, a mais midiática e simpática é a Aryna Sabalenka. Ela adora uma foto, é super espontânea e autêntica. Em um mundo de redes sociais em que tudo parece ser muito planejado, a Sabalenka é o oposto: ela é verdadeira e faz o que quer. Admiro muito essa personalidade dela.R7 - Hoje os próprios atletas e marcas buscam profissionais para cuidar de sua imagem. Como você enxerga essa transformação no circuito?Felipe Figueiredo — É um movimento gigante. Hoje os tenistas procuram videomakers e fotógrafos próprios para produzir conteúdo para suas marcas pessoais, algo que víamos muito no futebol. A Sabalenka e o Ben Shelton têm seus próprios profissionais de imagem. Ao mesmo tempo, é um mercado que precisa abrir mais espaço para os profissionais freelancers, pois os torneios ainda priorizam grandes agências internacionais. O tênis é um dos esportes que mais cresce em audiência jovem no mundo, impulsionado justamente por essa estética das redes sociais.R7 - Suas fotos do João Fonseca ajudaram a impulsionar uma virada na carreira dele. Como é a sua relação com ele e a sensação de registrar esse início de trajetória?Felipe Figueiredo — Eu acompanho o João há dois anos, desde o US Open de 2024. Fiz um vídeo no torneio que viralizou e chegou a marcas patrocinadoras dele, o que abriu as portas para eu viajar pelo circuito. Recentemente, entreguei a ele um quadro com a foto do abraço dele no Djokovic em Roland Garros, e ele me disse que colocaria a foto na parede do quarto dele.Fico impressionado com a maturidade e o equilíbrio mental que ele demonstra com apenas 20 anos, diante de toda a pressão do tênis. Tenho um arquivo imenso dessa evolução dele e meu grande sonho de carreira é fotografar o título de Grand Slam de um brasileiro.R7 - Além dessa foto com o Djokovic, qual outra imagem você considera o marco da sua carreira até aqui?Felipe Figueiredo — Duas fotos me marcam profundamente. A primeira é a do Djokovic abraçando o João pelo pescoço após a virada em Roland Garros — tirei essa foto literalmente chorando, no reflexo da emoção do momento. Nota da Redação: João havia perdido os dois primeiros sets da partida, válida pela terceira rodada de Roland Garros, mas conseguiu uma virada histórica por 3 a 2 sobre o tricampeão sérvio. A segunda é uma foto do Carlos Alcaraz no Australian Open com uma edição de sombras criativas, que foi publicada na Time. Foi a minha primeira foto publicada na revista americana e um grande divisor de águas.R7 - Por trás das viagens internacionais e dos grandes jogos, quais foram os maiores perrengues que você já passou no circuito?Felipe Figueiredo — Os perrengues acontecem direto. Já tive que cobrir um jogo da Sabalenka sob sol forte, enfrentando uma virose severa, alimentado apenas por uma barra de proteína. Em Londres, tomei um choque grave ao tirar um adaptador da tomada do hotel e passei o dia tonto, sendo atendido no posto médico de emergência dentro de Wimbledon. Em Indian Wells [torneio disputado no Vale Coachella, deserto da Califórnia], passei frio de 5°C vestindo apenas camisa, por não conhecer o clima desértico à noite. Na Austrália, enfrentei uma sensação térmica de quase 50°C à beira da quadra. É um trabalho que exige um preparo físico e mental muito grande.R7 - O que te motiva a continuar no circuito internacional e que conselho você daria para quem sonha em seguir esse caminho?Felipe Figueiredo — Desistir jamais esteve nos meus planos. Minha maior motivação é continuar contando a história dos atletas brasileiros pelo mundo. Seja registrando o João Fonseca, as duplas com Orlando Luz e Rafael Matos, a Luisa Stefani ou a nova geração, quero mostrar que somos capazes de ocupar o topo do esporte mundial.Mais do que isso, quero mostrar que as pessoas são capazes de realizar seus sonhos se direcionarem energia e persistirem. A fotografia cresceu muito com as redes sociais, mas o fotógrafo é muito mais do que alguém atrás da câmera registrando um fato: a história do próprio profissional também importa.Existia uma discussão sobre se o profissional é fotógrafo ou influenciador, mas a verdade é que você deve ser o que quiser. Se você pode contar o processo por trás das imagens, faça isso! As pessoas buscam histórias autênticas e verdadeiras. Fica o meu conselho: não tenha medo de tentar. Eu sigo tentando e estou pronto para registrar muita história pela frente.*Estagiário sob supervisão de Marcelo Tuvuca

















































