O Bairro das Águas Livres foi um projecto urbanístico pombalino de Lisboa, desenvolvido a partir de 1759 na zona das actuais Amoreiras, junto à Real Fábrica das Sedas, ao Aqueduto das Águas Livres e ao Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras. Concebido no contexto do fomento manufactureiro promovido pelo Marquês de Pombal, destinava-se a acolher fabricantes e artífices ligados à indústria da seda, combinando habitação, oficina e infra-estruturas produtivas. O bairro organizava-se em torno da antiga Praça das Águas Livres, correspondente à actual Praça das Amoreiras e ao Jardim das Amoreiras. A sua implantação aproveitava a monumentalidade do troço terminal do Aqueduto das Águas Livres e da Mãe d'Água, constituindo uma das primeiras operações urbanísticas estatais de grande escala em campo aberto na Lisboa moderna.
História
Antecedentes A formação do Bairro das Águas Livres relaciona-se directamente com a história da Real Fábrica das Sedas, fundada no reinado de D. João V e posteriormente integrada na política económica pombalina. Após o terramoto de 1755, verificou-se que a zona do Rato e das Amoreiras sofrera danos relativamente limitados, o que favoreceu o crescimento urbano ocidental de Lisboa ao longo do eixo onde se situava a fábrica. A fábrica, entretanto tornada propriedade da Coroa por iniciativa do Marquês de Pombal, foi reestruturada no âmbito de uma política de incremento industrial. A remodelação não decorreu apenas da reconstrução pós-terramoto, mas também da intenção de transformar a unidade fabril num centro de produção e formação manufactureira.
Plano pombalino de 1759 O plano de edificação do Bairro das Águas Livres foi aprovado por decreto de 14 de março de 1759. O projecto tinha como objectivo criar infra-estruturas para instalação de teares de seda e habitações condignas para os trabalhadores da Real Fábrica das Sedas. O desenho urbano é associado ao engenheiro e arquitecto Carlos Mardel, nomeado pelo Marquês de Pombal director e inspector das obras do bairro. Mardel foi responsável pelo projecto do Bairro das Águas Livres, numa área que abrangia sensivelmente o espaço entre a Mãe de Água, a actual Rua Artilharia Um, o Rato e Campolide. A documentação patrimonial da DGPC associa também o plano urbano à actuação de Carlos Mardel e Eugénio dos Santos, no quadro da reestruturação da fábrica. O bairro foi concebido como uma malha regular organizada em torno de uma praça. De acordo com a DGPC, tratava-se de uma malha quadrada com quatro quarteirões de blocos de casas, dispostos em torno da Praça das Amoreiras, segundo plano de 1759 atribuído a Carlos Mardel. A operação valorizava o remate monumental do Aqueduto das Águas Livres e a presença da Mãe d'Água, articulando urbanismo, abastecimento de água e indústria.
Função manufactureira O Bairro das Águas Livres foi criado para alojar e organizar a actividade dos fabricantes de seda incorporados na Real Fábrica. Cada casa destinava-se a combinar habitação e oficina, acolhendo o artesão, os aprendizes e os equipamentos de trabalho. Em 22 de maio de 1759, foram lançados despachos relativos à construção de 60 casas, sob direcção da Real Fábrica das Sedas. O projecto reflectia uma concepção de produção manufactureira descentralizada, articulada com a fábrica central. A eViterbo descreve a evolução da Real Fábrica das Sedas de uma unidade fabril simples para um centro coordenador de numerosas oficinas, processo para o qual contribuiu a construção de casas no Bairro das Águas Livres destinadas aos artífices da Real Fábrica. A função produtiva do bairro estava ligada ao chamado Real Colégio das Manufacturas, que funcionava como estrutura de ensino e organização do trabalho manufactureiro. Segundo a documentação patrimonial, os edifícios do bairro foram propositadamente construídos para albergar pequenas unidades industriais associadas a essa instituição, com oficinas no piso térreo e habitação no piso superior.
Praça das Águas Livres e Amoreiras A praça central do bairro foi inicialmente conhecida como Praça das Águas Livres. Mais tarde, a designação associou-se às 331 amoreiras plantadas entre 1761 e 1771 na Praça das Amoreiras para alimentar o bicho-da-seda, dando origem ao actual topónimo Praça das Amoreiras e ao Jardim das Amoreiras. A praça e o jardim mantiveram-se como núcleo urbano e simbólico da antiga operação pombalina. Na sua envolvente encontram-se ainda elementos associados ao projecto original, como a antiga Fábrica dos Tecidos de Seda, actual Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, a Capela de Nossa Senhora de Monserrate, habitações setecentistas e o Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras.
Urbanismo e arquitectura O Bairro das Águas Livres constitui uma operação urbana setecentista de carácter regular, associada ao urbanismo pombalino. A sua malha era organizada a partir da praça central e articulava-se com o eixo do Rato, com a Mãe d'Água e com o remate ocidental do Aqueduto das Águas Livres. A DGPC descreve-o como uma criação urbanística de grande escala em campo aberto, posterior ao Bairro Alto e anterior ou paralela às grandes operações de reconstrução e expansão pombalina de Lisboa. A intervenção procurava conjugar racionalidade urbana, monumentalidade infra-estrutural e função produtiva, distinguindo-se pela integração de habitação e oficina no mesmo conjunto edificado. As casas destinadas aos fabricantes seguiam modelos construtivos pombalinos, com edifícios rectangulares de dois pisos. O piso inferior comunicava com logradouros e destinava-se à instalação de oficinas; o piso superior era reservado à habitação. Esta solução correspondia ao carácter híbrido do bairro, simultaneamente residencial, industrial e pedagógico.
Património subsistente Embora o Bairro das Águas Livres já não exista como unidade urbana autónoma claramente delimitada, vários elementos da sua estrutura e envolvente histórica subsistem na zona das Amoreiras. Entre eles destacam-se:
a Praça das Amoreiras e o Jardim das Amoreiras, sucessores da antiga Praça das Águas Livres; a Real Fábrica das Sedas e os edifícios relacionados com a antiga produção manufactureira; o edifício da antiga Fábrica dos Tecidos de Seda, onde se encontra a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva; a Capela de Nossa Senhora de Monserrate, ligada à irmandade dos fabricantes de seda; o Aqueduto das Águas Livres e o Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras; a Travessa da Fábrica das Sedas e outros edifícios setecentistas associados à antiga colónia manufactureira. A zona envolvente encontra-se integrada em áreas de protecção patrimonial relacionadas com a Mãe d'Água, o Aqueduto das Águas Livres, a Fábrica das Sedas e edifícios da Travessa da Fábrica das Sedas.
Legado O Bairro das Águas Livres é um dos exemplos mais relevantes da articulação entre política económica, urbanismo e indústria no período pombalino. A sua criação respondeu ao objectivo de desenvolver a produção de seda em Portugal, mas contribuiu também para a expansão urbana de Lisboa para ocidente, em direcção às Amoreiras, ao Rato e a Campolide. Na história urbana de Lisboa, o bairro representa uma experiência de planeamento estatal em campo aberto, distinta tanto da cidade medieval e barroca como da reconstrução sistemática da Baixa Pombalina. A sua memória permanece sobretudo na toponímia das Amoreiras, na configuração da praça e no património associado à Real Fábrica das Sedas e ao Aqueduto das Águas Livres.
Referências

